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Fotossíntese

Lélia Deluiz Wanick


O planeta terra é tão bonito, tão interessante e tão intrincado. Justamente por este último motivo é que ele se encontra na situação atual. Rios sem água, ar poluído, buraco na camada necessária de ozônio que o recobre, terras e terras erodidas, animais expulsos de seus habitats naturais. Isto só para falar da natureza, esta que nos cerca, como é de costume se falar ! E do ser humano, este que a natureza « cerca », que balanço fazer? 20% detendo 80% da riqueza e 80% sofrendo de 100% de pobreza, mal-nutrição, poluição, doenças, falta de instrução, guerras, exploração, prostituição das crianças, enfim, uma lista infinda de mau viver. Somando-se claro ao egoísmo e ao egocentrismo dos seres que detêm o poder.
Em nossos dias, ouve-se muito falar em ecologia, as pessoas de um modo geral já assimilaram a palavra. Mas, o verdadeiro conceito que esta palavra resume – a ciência que estuda as complexas interligações entre as formas de vida do planeta – não estou muito certa que já esteja assimilado. O simples fato de se falar na natureza como algo que nos cerca, quer dizer que estamos no meio, como numa ilha, que não fazemos parte dela. Que somos espectadores ou produtores, ou ainda, do alto da nossa racionalidade, que podemos dominá-la ou controlá-la. Segundo o conceito ecológico, nós somos parte integrante deste conjunto global e interdependente de seres vivos. Nós somos o meio ambiente, e ele é nós. Sem a fotossíntese feita pelos seres verdes, bactérias e algas, não existiria oxigênio e sem este componente do ar, nem os seres humanos nem alguns dos outros seres vivos não poderiam existir. Sem a fotossíntese, a terra seria inerte.
É um privilégio podermos participar dessa interação de relações ecológicas, que é a vida do nosso planeta.
Quando estes conceitos começam a povoar as mentes é impossível não se pensar em soluções. A partir destas reflexões, nos veio, a meu marido, Sebastião Salgado e a mim, a decisão de colocar a pequena terra que possuimos – 675 ha – à serviço da natureza. Era com tristeza que olhávamos para aquela paisagem degradada, de terras completamente erodidas, de córregos sem água e animais magros. E assim é toda a região do Vale do Rio Doce. O rio outrora tão caudaloso, navegável, hoje completamente assoreado. A Mata Atlântica que antes fez o esplendor da região, hoje só é possível contar aos jovens através de gravuras ou fotografias.
Aí veio a idéia, vamos plantar uma floresta, vamos tentar recompor a paisagem existente quando por aqui andaram nossos antepassados? Rapidamente a idéia virou felicidade, e a esta, corre-se atrás ; como para as coisas boas sempre se acha adeptos, assim aconteceu.
A nós só cabia a boa intenção, precisávamos encontrar especialistas para nos ajudar nos primeiros caminhos. Nosso amigo Renato de Jesus, grande plantador de árvores, rapidamente adotou o pensamento fazendo aumentar nosso entusiasmo e nos fez par das linhas à seguir. Elaborou um projeto florestal tendo em conta a desertificação da terra. Foi necessário um estudo da planta topográfica para estabeler as características da pequena cobertura vegetal existente. Projetou a restauração com um total de 1.500.000 árvores, num período sequencial de 5 anos. No início de Novembro de 1999, com as plantas doadas pela Companhia Vale do Rio Doce, começamos a primeira plantação, com a ajuda e o entusiasmo da comunidade, sobretudo das crianças. Foi uma festa da natureza, até a chuva aceitou o convite.
Para o bom desempenho do projeto, foi necessário pensar-se numa estrutura administrativa e financeira. No início de 1999 foi criado o Instituto Terra, com sede na Fazenda Bulcão, no Município de Aimores, M.G. na divisa do estado do Espírito Santo. Fazenda esta que desde 1998 já tinha o estatuto de Reserva Privada do Patrimônio Natural , reconhecida pelo Instituto Estadual de Florestas do mesmo estado. Devo ressaltar que esta foi a primeira RPPN estatuada numa terra sem floresta. A administracão acreditou nos nossos propósitos e projetos. Pensamos também que deve ter sido a primeira vez que um casal quisesse doar à natureza a totalidade de suas terras com a obrigação de plantar uma floresta.
O Instituto Terra é uma intituição sem fins lucrativos e é composto pelos conselhos, diretor, consultivo e fiscal. Uma equipe administrativa responde pelo bom andamento quotidiano das diversas atividades. A partir do principal objetivo de reconstruir o ecossistema florestal através de diferentes formas de intervenção, recuperando os processos ecólogicos e contribuindo para a manutenção e enriquecimento da biodiversidade local, as idéias só fizeram florir. Estavámos criando um grande laboratório onde a pesquisa seria da maior importância. Testar e avaliar técnicas para recuperação florestal, desenvolver modelos de recuperação de áreas degradadas de Mata Atlântica, utilisar técnicas de baixo custo e alta participação comunitária. A avaliação dos processos ecológicos vigentes nas áreas remanescentes e o monitoramento dos sítios recuperados é o complemento à riqueza da floresta.
Para que o instituto cumprice a sua verdadeira vocação, um Centro de Educação e de Recuperação Ambiental foi criado para difundir tecnologias desenvolvidas ; criar um processo educacional com diferentes públicos sobre as questões ambientais prioritárias, promover uma reflexão sobre o atual modelo de desenvolvimento e potencializar agentes de transformação rumo ao modelo de desenvolvimento sustentável. O CERA ja está em funcionamento ativo desde fevereiro deste ano, tendo acolhido mais de 832 participantes nos 41 cursos ministrados. A estrututa educacional é organizada de maneira à não ter professores fixos. Para cada módulo são convidados especialistas de diversas matérias e de métodos diferentes. Os cursos são dados num tempo médio de uma semana, segundo o público alvo. Pessoas que com suas atividades tem a possibilidade de ajudar na mudança dos comportamentos , professores primários e secundários,secretários de meio-ambiente, prefeitos, fazendeiros, técnicos agrícolas, policiais florestal e tratoristas, agrícolas e de estradas. Também foi criado um projeto de desenvolvimento sustentável com os fazendeiros da região. Foram delimitadas as diversas bacias hidráulicas do municipio e está sendo desenvolvido um trabalho com o objetivo de reflorestamento das fontes para a recuperação da água já quase inexistente, e a tentativa do reflorestamento nas propriedades do mínimo de 20% , regulamentado pela lei. Este é o puramente ecológico, mas tão importante também é o trabalho direto com os proprietários, no sentido de encontrar novos produtos e novas tecnologias para o desenvolvimento econômico necessário nesta região, tambem vítima do êxodo rural onde a pobreza se instalou na mesma proporção da morte da água e da terra.
Para o desenvolvimento do projeto, tivemos apoio de empresas e instituições brasileiras e estrangeiras, entre elas, a CVRD, Natura Cosméticos e o FUNBIO.
Para a produção de mudas, o Instituto Terra já está produzindo no seu próprio viveiro. Uma doação da SOS Mata Atlântica para 160 000 mudas. Uma extensão do viveiro para um milhão de mudas, doação do Ministério do Meio Ambiente, está em fase de implantação. Num futuro bem próximo o ampliaremos para dois milhões de mudas anuais para assegurar as plantações nas terras da região.
As instalações de infra-estrutura do Instituto Terra foram projetadas com uma preocupação ecológica. As construções se inserem perfeitamente na natureza ; os materiais escolhidos são a madeira - eucalipto tratado - e alvenaria. Os edifícios implantados em círculo, à volta do antigo curral reformado e transformado em escritórios para a administração. Era primordial que a memória não se perdesse. Na antiga balança de pesar o gado, um agradável refeitório se instalou. As salas de aulas, a biblioteca, o laboratório e o herbário, fazem parte do conjunto cultural, onde uma sala polivalente faz as vezes de auditório, cinema e teatro, o primeiro do município a ver a luz. Mais adiante, a residência dos professores com uma bela varanda tipo deck virada para onde será um lago de coqueiros ladeado. No fechamento do círculo, a residência para 36 alunos. Todos os edifícios com quarto especial e rampas de acesso para deficientes. Está em fase de projeto, mais uma residência para 30 alunos , que serão residentes durante dois anos consecutivos, em turmas de 15 à cada ano. Trata-se de criar um curso de formação em meio ambiente para os técnicos formados nas escolas agrícolas. A idéia é inserí-los em todas as atividades, tais como, produção de mudas, monitoramento da fauna e da flora, assistentes nos diversos cursos do CERA e no aprendizado na captação e uso dos recursos.
Isto tudo inserido num parque jardim, onde as árvores foram escolhidas para florir o ano inteiro cada uma com cromática e formas distintas.
Ao redor, a paisagem de um relêvo privilegiado, está em constante mutação. Até hoje 350 000 árvores ja foram plantadas. Agora que as chuvas estão no seu período, já começamos a plantar, com a previsão de 130 000 árvores nos próximos dois meses. Trata-se de 150 diferentes espécies, todas cultivadas de sementes colhidas na região. Nos sítios onde ainda não houve intervenção, a natureza está se refazendo por sua conta. Do primeiro plantio já se ve espécies pioneiras de até oito metros de altura. O canto dos pássaros retornados ao habitat original, se ouve como se fosse uma orquestra, das mais harmoniosas. Que privilégio fazermos parte deste conjunto!

Lélia Deluiz Wanick é fundadora e atual Vice-Presidente do Instituto Terra

Este artigo foi publicado na revista Next Brasil, Ano 1, Número 1(2003).


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